
eu não vim embora pra cidade fugido da seca como muitos fizeram no quinze.
eu não passava de um garoto de dezoito anos que tava cansado de ser mandado pelo pai.
resolvir me mandar pra fortaleza sem conhecer ninguém aqui.
desci em parangaba como muitos desceram em parangaba desde que era porangaba.
por que é lá que tem a estação ferroviária.
eu não vi de trem nem de pau de arara como muitos no quinze
vim de carona de baturité até aqui.
só conhecia parangaba por causa da feira que até hoje existe.
a feira de primeiro era no lugar onde é o hospital do menino jesus.
bom acabei ficando por lá mesmo.
depois descobrir uns parentes que moravam na fumaça que me convidaram pra morar aqui.
aí acabei comprando um quartinho na fumaça e passei a morar de vez na fumaça.
me tornei um fumaçeiro como os outros.
quando eu cheguei aqui não tinha ruas nem nada
era só um matagal com vacarias, paióis, sitios e base aérea.
não tinha água, nem luz, não tinha nada.
eu mesmo ajudei a cavar uma cacimba por aqui
na época ter uma cacimba em casa era um luxo.
ter uma televisão também era um luxo.
hoje não cada pessoa tem uma ou até mais de uma tv.
tem água encanada.
e ninguém bebe mais água de cacimba porque faz mal.
mas na época ninguém nem sonhava que água de cacimba fazia mal.
quase tudo girava em torno das cacimbas.
lavar a roupa ao redor da cacimba, banhar us meninos, até os namoricos era em redor da cacimba.
muita gente também não tinha banheiro e o povo cagava nos matos mesmo como bicho.
as crianças bricavam nos matos também por que quase tudo por aqui era rodeado de matagal e elas adoravam.
as mulheres adoravam ir lavar roupa nas cacimbinhas.
hoje elas odeiam ter que puxar um balde se qué de água.
antes o povo valorizava mais a água.
hoje desperdiçam muito como se agora estivessemos a salvos pra sempre da seca.